Mais chamego, menos ostentação


Há na elaboração das reportagens do projeto São João da Gente um trabalho arqueológico da equipe de jornalistas e técnicos que revela uma das maiores riquezas a diferenciar Sergipe de outros estados onde a força da globalização foi responsável pela destruição de tantas tradições.

Partimos de um desafio: visitar as cidades do interior do estado mostrando as tradições juninas, ouvindo os velhos e os jovens, procurando a ponte invisível que torna a festa cada vez mais forte no coração dos nordestinos. A forma como o clima de São João penetra nas sutilezas do cotidiano, nos olhares, nos sorrisos, na vida da cidade, diz muito sobre a presença dessa tradição como um sentido contemporâneo.

Desde o final dos anos 1960, vivemos a ordem da espetacularização. O São João também navega nessa onda: as quadrilhas ganharam adereços luxuosos, multiplicaram-se os grandes shows em praça pública, a festa se tornou uma atração turística. Da espetacularização chegamos ao forró ostentação. As brincadeiras na calçada, ao redor da fogueira, deram lugar aos camarotes separando as massas dos eleitos. Mas sobre essa ordem respira uma origem, aquela da festa da colheita, da mesa farta dos derivados do milho, da resposta dos santos as preces do sertanejo.

Enquanto na ordem da espetacularização somos a grande maioria, espectadores, na tradição de São João o povo é protagonista, produz cultura como um sentido de relação com o simbólico que é capaz de torna-los mais belos, felizes, saudáveis.

Não se trata de defender uma tradição imutável, mas de perceber como alguns valores e jeitos de viver de nossos antepassados podem sinalizar outras possibilidades de existência que a história deixou à margem. É esse patrimônio imaterial que o São João da Gente fez circular a partir do trabalho dedicado e sensível de uma equipe guerreira e calorosa.

Agradeço a todos que se aventuraram conosco nessa viagem, felizmente hoje podemos ouvir os ecos de nossa produção nas redes sociais, nos comentários que ajudam a dar forma a narrativa, a tradição agrícola do São João se tornou signo na grande usina da brasilidade. Nossa estrada se chama cultura popular, um caminho de saberes e sabores, de ritmos contagiantes, do chamego que é próximo à alegria de viver. A profissão de jornalista tem um toque de antropólogo: decifrar os sentidos das culturas.

Há algo que transcende as palavras e as imagens no São João e acho que esse projeto consegue acessar essa magia como um sentido das margens, da resistência, da potencia poética de existir e curtir o tempo da festa. Vamos seguir reinventando, juntos, o São João.

Como diz uma canção de Gilberto Gil: quem vai soltar balão na banda larga é alguém que ainda não nasceu! Nesse segundo ano em novo formato, o São João da Gente tem se dedicado a um trabalho arqueológico pela cultura popular sergipana.

Trabalhar junto com essa equipe guerreira que deu forma as ideias foi das experiências mais gratificantes que vivenciei como jornalista. O São João da Gente é uma peça de resistência. As reportagens mostraram o povo como protagonista de sua própria história, longe de expectadores.

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