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Entrevista com Gilberto Gil | A arte do encontro

August 6, 2017

 

 

Chego de véspera para o compromisso, vindo de carro de Aracaju com minha mulher, Adriana, e meu filho, Gabriel. Salvador respira carnaval, dois dias antes da abertura oficial. Hospedo-me num hotel no corredor da vitória, numa alameda arborizada margeando a Baía de Todos os Santos. No fim de tarde, refaço os poucos metros que levam até a porta do apartamento de Gilberto Gil. 

 

Deixo-me invadir por uma espécie de beatitude – a cidade anda nos meus passos: gente, cores, arquitetura,cheiros. É uma preparação para usufruir da melhor forma o encontro, marcado para o dia seguinte. Estou aqui para entregar uma cópia do livro A voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, publicado pela Ateliê e Edunit e baseado em  meu trabalho de doutorado na Universidade Federal de São Carlos.

 

Estive com ele antes, rapidamente, para entregar a tese no ensaio de um show em Ribeirão Preto, há pouco mais de dois anos. Muita coisa mudou na minha vida desde então, mudei de emprego, de cidade. Estou próximo de realizar algo impensável para o adolescente, fã da música de Gilberto Gil: ser recebido por ele em casa para uma conversa. Não ia como jornalista e nem pesquisador. É o momento de agradecer, compartilhar a boa acolhida que o livro tem tido em alguns lançamentos.

 

No dia seguinte faço o caminho ensaiado no dia anterior – dessa vez, acompanhado por Adriana. Agora é pra valer. Transpomos a portaria, caminhamos os metros que separam a área comum do prédio até o elevador e tocamos a campainha. A moça que nos atende pede para esperar um pouco porque Gil está chegando de um compromisso. Na sala ampla, conversamos sobre aquele momento, folheio um livro do fotógrafo Mário Cravo Neto com imagens representativas da diversidade cultural de Salvador: A Roma negra cantada por Gil.

 

Um pouco mais e escuto pelos fundos da casa a algazarra das crianças chegando de um passeio com o avô. Gilberto Gil chega à sala de bermuda branca, sandálias de borracha e camisa de estampas tropicais. Caminha em nossa direção e após os cumprimentos se senta num banco em frente ao sofá onde estamos. Agradeço a acolhida e encontro um interlocutor afetuoso, interessado em saber as histórias de minha vida: como foi o processo de escrita do livro, como equilibrava a função de jornalista de televisão com a pesquisa. Por um momento parece que ele é o jornalista e eu o entrevistado.

 

Depois de alguns anos vasculhando a obra do artista procuro agora ler o homem. Os olhos muito vivos, uma disposição para a escuta, aqui e agora em atenção plena. Agradeço por ser recebido em pleno carnaval, em meio aos compromissos com o camarote Expresso 2222, já tradicional na Bahia. Há, entre as falas e pausas, pequenos silêncios cheios de sentido. A conversa é sobre pais e filhos, tradições familiares. 

 

Gil fala da experiência de tocar no bloco de Preta Gil, dias antes no Rio. “Nunca deixamos de criar os filhos, quis ir lá ver como é.” Lembra que já é bisavô – o que me leva a pensar na verve roqueira presente na interpretação de “Punk da Periferia”, no show pelo aniversário de São Paulo exibido dias antes na TV.

 

Pergunto se o espírito do carnaval ainda aquece seu coração. Gil acha que a cidade fica melhor nessa época e lembra como os antigos carnavais de Veneza duravam meses. “Talvez seja a hora de retomarmos esse hábito”, diz ecoando a risada aberta e franca. Falamos da crise brasileira, da importância do carnaval como afirmação de uma identidade balançada pelas derrotas no futebol, na política.

 

O carnaval como rito de fortalecimento coletivo e individual. Confirmo uma impressão que já tinha a respeito de Gil: o ar sereno e calmo de quem, como o Dorival Caymmi cantado por ele é Buda Nagô, contrasta com a figura eletrizante nos palcos, quando ele se entrega à Deusa Música.

 

A conversa desliza para indagações filosóficas sobre o mundo dos silêncios interiores que perdemos nesse processo intenso de refinamento dos mecanismos de controle com ares de inovações tecnológicas. Quais os rumos da história nessa segunda década do século XXI? A conquista ao direito a seis meses de carnaval ou a volta triunfal do ET de Varginha? A pergunta provoca novas risadas e recordações de uma das canções mais filosóficas de Gil: “Queremos saber”. Ele cantarola a letra: “queremos saber/quando vamos ter/raio laser mais barato/queremos de fato um relato / retrato mais sério/ do mistério da luz/ luz do disco-voador/ pra iluminação do homem/ tão carente e sofredor/ tão perdido na distância/ da morada do Senhor.”.

 

É hora da despedida. No abraço final desejo, espontaneamente, vida longa ao poeta. Ele nos acompanha até a porta. É inicio da noite no Corredor da Vitória, foliões caminham em direção a Praça Castro Alves. Sigo em paz e procuro, no fundo do hotel, um canto inacreditavelmente silencioso.  Peço uma cerveja e contemplo as águas calmas da Bahia de todos os santos, indiferentes ao carnaval. Penso nas pontes: entre Caymmi e Gil, entre a Bahia e Minas, entre sujeitos e objetos. Tenho vontade de ouvir a voz dos meus pais e ligo para minha terra.

 

 

 

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