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Caçador de imagem

July 12, 2016

Publicado originalmente no blog no ar

Januário Garcia acabou de chegar de Salvador.  É uma manhã de sol, num domingo no Rio de Janeiro, marcamos a entrevista para às quatro da tarde, na casa dele, em São Cristóvão.  Fotógrafo e uma das mais expressivas lideranças negras do Brasil, Januário esteve antes na Nigéria, para fotografar o carnaval da África.

 

Notou muitas semelhanças com a festa de rua de Salvador e resolveu concluir o trabalho na Bahia.  São fotos que vão se juntar a um rico acervo que conta a história do movimento negro no Brasil - desde os anos 60. Mas esse não é o único ângulo escolhido pelo ex-menino de rua que um dia trocou Belo Horizonte pelo Rio.

 

A cidade foi generosa com ele. Nos anos 70 e 80, Januário Garcia foi um dos principais fotógrafos das capas dos antigos Long. Plays dos grandes nomes da MPB. A foto do urubu em pleno voo no disco homônimo de Tom Jobim é de Januário, Caetano Veloso no colo da mãe do disco "Muito “também, o Raul Seixas   dos dez mil anos atrás também, a lista inclui ainda Chico Buarque, Tim Maia, Belchior, entre outros.

 

O táxi me deixa na porta de um prédio de quatro andares numa rua tranquila, com crianças nas calçadas. Subo as escadas e sou atendido por Januário, dono de uma risada contagiante. Começamos a conversa por Tom Jobim, “uma pessoa diferenciada", conta Januário. Ele está preparando uma exposição "Instantes Instantâneos do Maestro, com imagens de Tom e parceiros como Edu Lobo.  Como foi feita a foto do urubu? pergunto.

 

Januário busca na memória o final do verão de 1976.  Tom regressava dos Estados Unidos com um disco feito com total liberdade e recursos próprios. Voltou estimulado a conhecer melhor os hábitos do urubu. Passava horas no Jardim botânico e na Tijuca observando a ave. Quando foi hora de escolher o nome do disco não teve dúvida: "urubu”.

 

O desafio era fazer uma foto do bicho em voo para ilustrar a capa. Tom pediu ajuda ao filho Paulo Jobim, que tinha uma moderna máquina fotográfica, e foram inúmeras tentativas de registrar o bicho. Com o tempo, chegaram à conclusão de que precisavam da ajuda de um profissional.

 

Tom recorreu então a Januário Garcia ““Ele me disse que “urubu " era o disco mais bonito que tinha feito e pediu para embalar o trabalho com o coração”. Foi preciso também certo preparo físico.  Januário e Tom passaram semanas em expedições a estrada da Grota Funda, lá pelos lados da Pedra de Guaratiba.. O fotografo ri ao lembrar de Tom parado num posto de gasolina, perguntando ao frentista se ele tinha visto um urubu passar por ali. Assustado, o rapaz não respondeu e procurou o gerente que reconheceu o compositor e disse, "eles não são malucos não, são só artistas".

   Depois de muita observação, os dois se embrenharam no mato e identificaram num penhasco o local onde morava um Urubu da cabeça vermelha-. Fizeram marcas para não perder o caminho e voltaram no dia seguinte bem cedo, antes do sol nascer. "Foi um dia inteiro só esperando o bicho", conta Januário. "Lá pelo meio dia o urubu saiu e acompanhamos toda a trajetória do vôo dele, um estudo para a foto". No dia seguinte repetiram o ritual. " Tom só quebrou o silêncio para dizer que dali a pouco o urubu iria aparecer e descreveu o trajeto da ave no ar”. Não deu outra. Na época, os equipamentos fotográficos não tinham os recursos de hoje e Januário se esforçou para enquadrar e focar o bicho em movimento. Foram várias fotos e a escolhida ilustrou duas versões da capa do disco - uma no Brasil, outra nos EUA.

 

Os olhos de Januário brilham ao lembrar de Tom e o Urubu. Januário mostra na versão americana do disco o agradecimento do maestro; "thanks to my friend Januário Garcia. Who, like a hunter, got the pictures of this master of the winds". Ele   busca na estante outros Lps- vejo a clássica foto de Caetano Veloso deitado no colo de Dona Canô, sua mãe. Januário conta que recebeu um telefonema da gravadora de Caetano com a incumbência de fazer a foto do novo disco dele, pegou o avião e foi para Salvador.  

 

Na sala da casa, antes mesmo de conversarem sobre o trabalho, a foto foi feita. Caetano brincava com o filho Moreno no chão e dona Canô estava sentada no sofá. Um determinado momento, Moreno se deitou no colo do pai, que repetiu o gesto com Dona Canô. "Quando vi aquela cena linda, comecei a fotografar - filho, pai e mãe e eles nem perceberam".

 

Depois de um almoço baiano, Caetano falou sobre o projeto do disco. Disse a Januário que iria mostrar a música que sintetizava todo o espirito do disco. "Ele cantou "Terra " pela primeira vez, foi uma emoção tão forte que não consegui perceber os detalhes da letra, pedi para ouvir novamente ". Quando Caetano cantou pela segunda vez perguntei a ele o significado de "Terra ". A resposta não poderia ser outra - a mãe. Januário não teve dúvida: "Caetano a capa está pronta".

 

Raul Seixas é outra personalidade inesquecível. "Ele chegou com um litro de uísque que bebeu em pouco tempo, depois pegou uma garrafa de cachaça de Salinas e também bebeu.  Januário perguntou: Raul, você não tem medo de morrer, bebendo desse jeito? Ele olhou o infinito, ficou em silêncio, não respondeu. Alguns minutos depois veio uma resposta que sintetiza toda a criação de Raul - "Januário não tenho medo de morrer, tenho medo de deixar de existir." Januário reforça o mito em torno de outro artista, Tim Maia.  "Esse era difícil, a gente marcava a foto, arrumava uma pessoa do tamanho dele para definir a melhor luz, quando estava tudo pronto, toda a equipe esperando Tim Chegava e dois minutos depois abandonava o estúdio”.  "Não vou fazer a foto hoje “, dizia o compositor de "Só quero dinheiro".

 

Não foram só as estrelas da MPB que cruzaram o caminho de Januário. Ele mostra um caderno especial do Rio de Janeiro, com fotos de ângulos pouco vistos da cidade maravilhosa publicado pelo Jornal do Brasil.  "Olha só quem escreveu os textos desse ensaio". Vejo o nome de nosso poeta maior - Carlos Drummond de Andrade. Januário tem olhos de caçador e nasceu para ver a beleza. Quando vivia nas ruas do Rio de Janeiro, ainda adolescente pegou uma pneumonia que quase o levou a morte. " Eu estava no hospital e escutei o médico comentando que tinha poucas chances de vida, na hora juntei todas as minhas forças pela vida. Foi um milagre".

 

Graças a esse milagre, Januário pode traduzir em imagens a música e a poesia do Rio de Janeiro. Antes da despedida, pela janela do apartamento. Na rua ainda estão as crianças. "Repare nas casas, sem muros, e só se fala em violência". O rio é tranquilo em São Cristóvão, no final da tarde de domingo. As balas estão perdidas em outros lugares. A cidade que luta contra a violência foi capaz também de transformar um ex- menino de rua em Januário Garcia, caçador da imagem do urubu em pleno voo, da mãe terra, dos mistérios da existência.

 

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